Por uma maternidade menos conectada

Ilustração de Julia Rothman para o blog A Cup of Jo

Ilustração de Julia Rothman para o blog A Cup of Jo

 

No rápido trajeto do elevador entre o térreo e o segundo andar, eu e uma amiga fomos constrangidas por uma garotinha de cinco anos enquanto checávamos mensagens no celular. “Qual de vocês fica mais tempo no Facebook?”, perguntou a amiguinha da minha filha. Como assim? Ela sabe o que é Facebook? Sim, sabe e certamente deve recriminar o tempo que sua própria mãe passa na rede social.

A carapuça me serviu, claro. Sou do tipo que vivo com o celular por perto, mas tento me policiar quanto a atenção dada a ele na frente da minha filha. No entanto, depois desse xeque-mate no elevador, repensei mais uma vez minha relação com o smartphone.

Estou na reta final da gravidez do meu segundo filho e uma coisa já havia decidido: a proibição do celular na poltrona de amamentação. Apesar de saber de ótimos aplicativos que controlam as mamadas, não quero a interferência desse aparelho na minha relação com o meu bebê. Li em algum lugar que o ato de amamentar é como um namoro entre mãe e filho. Adorei a comparação e é isso que eu quero, olhos nos olhos.

Comecei o detox digital na licença-maternidade, a poucos dias do bebê nascer. Achei que esse momento de pura ansiedade, que me faria recorrer ao celular mais vezes, e a não obrigação de checar emails de trabalho, seria um bom treino. A primeira providência foi sair de um grupo de 10 mil mães do Facebook que abarrotava a minha timeline. Muitos dos meus amigos já aparecem cada vez menos por ali e o espaço estava sendo dominado pelos posts do grupo, que já me ajudaram com algumas dúvidas maternas, mas seus recentes conteúdos de tragédias com crianças e a intolerância entre algumas mães sobre o que é certo e errado (parto normal ou cesárea, alimentação saudável ou não) estavam sendo mais nocivos do que benéficos para mim.

O bom disso tudo foi que os livros voltaram a ocupar meu tempo e arrefecer minha ansiedade. Comecei relendo alguns capítulos de “Crianças Francesas Não Fazem Manha”, mas logo desisti. Acho que o assunto maternidade não era a melhor opção para distração. Também pulei dois livros que estão na fila no meu criado-mudo: “Kafka À Beira-Mar”, de Haruki Murakami, e Norma Bengell. Ele é um dos meus autores favoritos, mas preciso dedicar atenção para suas ficções e ando aérea para isso. E apesar de biografia ser um dos gêneros que mais gosto, também não quis mergulhar no universo hardcore da atriz neste momento. Concluí que textos mais curtos seriam a melhor indicação, como a primeira coletânea de crônicas “Trinta e Oito e Meio” da atriz e roteirista Maria Ribeiro. Recomendo super. Embalei nessa pegada de mulher famosa, inteligente e que expõe suas fragilidades sem medo de tirar sarro dela mesma e comecei a ler ontem “Não Sou uma Dessas”, de Lena Dunham, criadora e protagonista da série de TV “Girls”. Gostei do que vi até agora.

 

Coletânea de crônicas da atriz e roteirista Maria Ribeiro

Coletânea de crônicas da atriz e roteirista Maria Ribeiro

Relatos sinceros e com bom humor da estrela de "Girls"

Relatos sinceros e com bom humor da estrela de “Girls”

Luciana

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